quarta-feira, 11 de abril de 2018

Só com química me movo



O óbvio, desta vez não vai embora, insiste em prevalecer, resiste á razão e ao racionalmente correto! 
Desta vez, ele subsiste, intato e sempre presente, como uma mãe e um pai que está sempre lá, que não nos deixa cair em desgraça, que nos massacra de tanta preocupação!
e de repente, ele fala mais alto, ele ecoa por todo o universo e explode de verdade, de complexidade e de tortura constante.
O desapego material e palpável, é terrível, faz-nos ver o mundo, ver toda esta energia de uma forma desprendida com fome de emoções, de aventuras e paixões desenfreadas...sabes, as verdadeiras, as sentidas e exprimidas feitas de espontaneidade? Preciso delas, preciso delas para viver, para respirar, só assim tudo faz sentido, só assim o sentido se faz vida, a insatisfação constante percorre-me as veias, sinto que elas vão ficando cheias e me alimentam a alma!
Como se vive, se sobrevive, sem aquele click, aquela centelha, o impulso de caíres de cabeça sem pensares se te vai doer ou não? Como te moves se simplesmente não sentes nada! Que química é essa que não te mata, mas que contagia com tanta força que mesmo preso fisicamente vagueias por todo o espaço e tempo e ás vezes encontras-te comigo...e eu...ás vezes...sinto que é quase sempre!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Nos meus sonhos...


Num mundo perfeito, coberto de chocolate preto
muitos ovos moles e creme de pasteleiro,
teríamos todos a mesma linha de pensamento,
nadávamos nus e o frio só durava um momento.

Neste mundo de utopia, tudo era giro
não havia brigas, fome e não se ouviria um tiro.
deita fora o pré-concebido, o barulho e o resto
tudo é lindo, deita fora a ideia do «eu não presto».

O mundo é enorme, é longe e perto
vagueia e erra por onde passares
não vejas nada como certo
e conta com um ombro onde te encostares.

Se o vento é teu amigo, o resto também o é
canta o que quiseres comigo
e voa livre como um pássaro, voa
e procura o teu porto de abrigo.






quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Aparece!








A cada dia percebes que o dia de ontem já não é importante, no entanto prevalece nos teus pensamentos diários como um guia espiritual como uma lista de compras em que se vai riscando o que já se adquiriu. As coisas más escapam-se por entre os dedos, amanhã já não te lembras, e cada vez mais o dia a seguir, limpa o de ontem, é sempre assim, mas agora acentua-se! Desejavas que 85% do mundo agisse exatamente de acordo com o que sente, e não de acordo com o estipulado por cada sociedade...pelo menos assim terias mais gente para chamar de amiga, parece obsceno pensar que só 15% da população mundial agisse dentro do protocolo...sonhos...

Porque é que nada te choca, porque é que nada é tabu, nada é monstruoso ou assustador...mas depois tudo isso é devastador quando estás sozinho! ou será ao contrário? despe-te, sim despe-te de toda e qualquer ideia pré-concebida, dos rótulos, dos preconceitos, dos estereótipos, isola-te do massivo ataque da informação das conjeturas das educações...e aí talvez te vejas exatamente como és, o que sentes transformasse no que queres e desejas e ages em conformidade e és tu e só sendo tu poderás SER HUMANO, ser transparente e integro como um dia te venderam que serias com toda a formação que levaste ao longo da tua parca vida.

APARECE, E VIVE DE VERDADE!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Doce



Haaa a vida, a vida vemo-la através da nossa própria alma, da nossa própria essência! Quanto mais tranquilos, mais puros e genuínos estamos, melhor a vida nos sabe…portanto leva-me a crer que a vida começa de dentro para fora, que só nos sabe bem, se bem estivermos connosco. E foi a pensar nisto que resolvi exteriorizar alguns pensamentos.
Quando sofremos uma deceção, uma quebra, uma desilusão ou contrariedade, temos tendência a fechar-nos e a carpir, às vezes durante demasiado tempo, tanto tempo ao ponto de nos habituarmos a andar amargurados, magoados, doridos…e de fazer desse desalento um estilo de vida…
E que tal carpirmos um dia, dois no máximo e depois substituir essa tristeza por algo que adoramos fazer, por algo que nos ocupe a mente e nos distraia do «problema» até o erradicar por completo? Todos temos um rebuçado recheado de néctar dos Deuses que adoramos e que guardamos para um dia especial. O meu rebuçado está recheado de boas conversas, de estímulos visuais, de partilha de experiências, de interacção com alguém que ainda não conheço, alguém que ao desembrulhar o seu invólucro, liberta um aroma que se assimila aos poucos, com uma cor única e um recheio por desvendar…È esse rebuçado, esse doce que irá entreter a minha mente e a fará fervilhar de ilusões, de encantamentos e paixões!
E quando o doce, o tal rebuçado se esgota, se consome?
Se gostaste tanto dele ao ponto de te fazer querer comer outro igualzinho…então é sinal que já não precisas de rebuçados, é indício que o teu espírito, a tua alma ficaram embrenhados no prazenteiro e que a paixão te assaltou e que começaste a viver novamente de dentro para fora.
Se pelo contrário o doce chegou ao fim e não te satisfez, não te deu nada, e não sentiste vontade de devorar outro semelhante…humm…e que tal procurares no saco dos doces, outro para desembrulhares? ! um diferente, de outra cor, outro sabor…vai tentando, tenta até ficares repleto de sabor e magia, impregnado de conhecimento absorvido e de ideias diferentes das tuas….tenta vários até o vento te levar a outra dimensão, a outro mundo, o mundo das emoções e descobertas!
Ainda te lembras do real motivo que te levou a carpir, a sofrer?
Eu sabia que não ;-)


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O BAR






O BAR


…O som entrava no corpo e consumia a mente, sem querer aquele taberneiro tinha feito a escolha mais acertada da vida dele! E nós o admirávamos por isso…o ambiente deserto fez disparar a química abrupta que nos envolvia…e aos poucos senti o teu corpo contra o meu…pleno, firme, numa dança continua e sem mundo, sem chão, só nós!

A luz sombria que nos envolvia convidava á volúpia, ao acaso, ao eterno! Aquela guitarra ecoava no mais íntimo de nós…e como nos prendia!

Sentamo-nos novamente, o barista serve-nos mais uma bebida, entram mais pessoas e a sala enche-se de vozes, de murmúrios, mas eu só te ouço a ti. A música dissipa-se no ar e a tua voz envolvente mata-me aos poucos, deixando-me completamente a latejar e sem forças…sinto que nem o mais forte dos terramotos desviaria a minha atenção de ti…

Tu não querias ir já para casa e eu não tinha casa para ir, a envolvência do teu olhar era mais que isso, mais que qualquer casa, que qualquer  teto, e aquele bar era perfeito..humm…se era!

O vento lá fora sussurra palavras de traição, emana vícios, limpa rastos….mas nós não queremos ir, nós não somos os outros, nós não somos nós, somos o tu no eu , somos o que queremos, quando queremos sê-lo…mas o vento teima em nos levar…sinto a tua mão a puxar-me forte contra ti, a tua boca no meu pescoço e as tuas mãos firmes na minha cintura, levam-me novamente para fora da alma, para uma dimensão nunca antes alcançada…e eu rendo-me, e tu invades-me, aos poucos, lentamente…

Mas…não estamos sozinhos, temos as almas do passado junto a nós…temos os nossos deuses sempre presentes, enquanto dançamos, enquanto nos cruzamos, a cada toque a cada afago, eles estão lá…cada pedaço deles está em ti, está em mim…e os procuras, tu sabes que sim, e eles se manifestam…mas essa busca incessante te lança na espada e mais uma vez te vergas a ela, e ela te subjuga! A música não pára, e o dia nasce…o espirito prevalece e nós também…nós vamos embora, mas a nossa música ficará para todo o sempre!

O espirito é eterno e permanece,  sempre…naquele BAR!

 a matéria não me sustenta!

Da tua Janela...





















Da tua janela eu me revejo, me reinvento 
da tua janela vejo um mar só meu
Não fora esse parapeito, esse intento
desapareceria no que se prometeu.

Promessas eternas de mel cobertas
perdia-me aqui e no sal ficava
para vê-las um dia descobertas
pelo sol e o perfume que emanava!

Se um dia por aqui passares,
leva a minha alma contigo
alegre no monte e a cantares
jura-me que te assomas ao postigo!

Ficaria para sempre aqui
de mistérios estaria rodeada
e quando procurasses por mim
de poções estaria encantada!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O teu murmúrio







O Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto



2 versões a inicial do Vitorino e a que se segue dos A Naífa







Eu que me comovo


Por tudo e por nada

Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942 )



ao que zenite responderia: 


sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a tal senhorinha
que não tinha casa.
tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele janeiro
dos anos setenta.

ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém
só dias sofridos.

não havia lua
não havia estrelas
e não tinha abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

o seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela:

verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Night «train» to Unknown...

...Era para Lisboa, mas podia ser para qualquer outro lugar do mundo, do universo, para qualquer outra dimensão se acreditarmos nela.
«Night Train to Lisbon», retrata um individuo, de meia idade, que sempre viveu uma vidinha medíocre, sempre se moveu na sua rotina diária de ser humano igual a tantos outros! os dados estavam lançados, o vislumbre de uma mulher a tentar se suicidar na ponte, fez despoletar toda uma panóplia de acontecimentos e de questões na sua cabeça, sim, uma mulher...no entanto poderia ter sido qualquer outra coisa, uma pedra, um gato, um acidente...qualquer coisa!
 Este filme, transporta-nos para uma questão pertinente: «-e se eu hoje não for por ali?!»

Todos os dias nos deparamos com um sem número de imagens, de alternativas, de possibilidades...mas a todas fechamos a mente...a todas dissemos NÃO! e, se um dia, sem olharmos para trás, entrarmos num «comboio», será que ao regressarmos, se é que regressaríamos, desse «comboio», a nossa vidinha continuaria a mesma??
 Ao abrirmos o nosso horizonte, as nossas pálas laterais, jamais em momento algum, conseguiremos novamente fecha-las, e é ai que reside a complexidade assombrosa desta máquina que é o cérebro humano!  portanto, recomendo este filme, não pela bela Lisboa, não pelo magnífico Jeremy Irons, muito menos pelo retrato de um Portugal que existia e que era muito mais unido, apesar da ditadura! Recomendo-o sim, pelas lacunas que vos surgirão na mente e pelo vácuo em que ficarão quando a película terminar!


Made in livro da insanidade, by Metamorfo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

estes versos meus!




O ilusionista...um filme, uma história, 2 corações...uma realidade, um sentimento, uma só paixão...a paixão das palavras, a paixão do que não se vê, a magia do sincero, da cumplicidade!! 

♥- o conhecimento inevitável, o encantamento do desconhecido, a sedução do irreal, do não palpável, levava-te ao extremo da loucura...

O Conhecimento profundo nunca te atraiu 
a paixão pelo desconhecido, dava-te pica.
traçaste uma ténue linha que aos poucos te fugiu, 
eco, eco...não vás!! espera, por favor fica!

Lânguido nos passos, suave na expressão,
onde está o meu esquivo amor...
quem me afaga o tremulo coração,
quem abafa esta estranha e duvidosa dor?

♥- a Surpresa do ocasional, o desejo do impossível
toda a envolvente do mistério poderoso da química que
te envolve, e toda a brisa que emanas ao olha-la...assim...
sedutor, como só tu sabes ser!

profana-te o cérebro, engana-te a mente...
poderá alguém ser assim...simples, despida,
conversas contigo próprio, desmesuradamente
proíbes-te dela, enganas-te...pobre vida!

lanças-te no infinito, numa busca errante
procuras o desafio, a loucura a chama acesa.
a sedução grita por ti, como uma estrela brilhante...
Oh! cavaleiro mágico, protege a tua princesa!

♥in livro da insanidade by Metamorfo










quinta-feira, 30 de junho de 2011

Repo Man

Repo Men - para mim um filme peculiar e com uma história de amor incrível!!
a brasileira Alice Braga está com um desempenho fenomenal, mesmo ao meu jeito!
simples e profunda, sem nunca perder o seu ar sensual e brutalmente envolvente! em Jude Law sente-se a dualidade de sentimentos e o seu lado protetor exacerbado não me deixa indiferente! para mim um dos melhor papeis que já encarnou.
Em português «o Colector» não vou me debruçar de todo sobre o conteúdo do filme e muito menos entrar em pormenores, simplesmente cingir-me-ei ao que sinto quando penso nele..até porque este género de enredo ou se gosta ou se detesta!! 
o verdadeiro conceito do amor, a verdadeira essência da amizade 2 homens, 1 mulher, um destino..acho que está lá tudo independentemente do desenvolvimento do filme, do realismo da estrutura ou da crítica enfadonha de alguns blogueiros!!
o sentimento, o lado verdadeiro sobressai, distingue-se dos demais contos de encantar sobre o amor e a amizade, é um amor e uma amizade levada ao extremo, que ultrapassa tudo, até a mais louca dor, sim dor, dor física, a dor estridente do corpo.
não me interessa a crítica e não me interessa que não entende que quando se ama, ama que quando se gosta, gosta mesmo, gostar sem reservas, sem tabus sem medo de consequências sem medo de arriscar,  apesar dos defeitos do próximo, apesar dos apesares dos maus cheiros das insanidades mentais de cada um...gostar de um amigo ou de um companheiro de vida a dois é a mesma coisa teoricamente falando ou se gosta ou se não gosta e quando gostamos, gostamos mesmo...sem sombra para dúvidas ou entraves!! por isso quem é fanático por aquele gostar sem oposições...recomendo vivamente esta película!! http://www.imdb.com/title/tt1053424/




segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Richard Bach

COmo sei que por mais link's que poste voçes nem vão abri-los, aki vai a tranferencia do poema do Richard:

RICHARD BACH




NÃO HÁ LONGE NEM DISTÂNCIA






«Rae! Muito obrigado pelo convite para a tua festa de anos!

A tua casa fica a milhares de quilómetros da minha, só faço uma viagem por uma boa razão...

e não pode haver melhor que uma festa em honra de Rae. Estou ansioso por estar contigo.



Iniciei a minha viagem no coração do Beija-Flor que tu e eu conhecemos há muito.

Foi simpático como sempre, mas no entanto, quando lhe disse que a pequena Rae estava a crescer e que ia ao seu aniversário e lhe levava um presente, ele ficou confuso.

Voámos juntos em silêncio durante um bom bocado e por fim observou:



«Não compreendo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo porque dizes que vais à festa.»



«É claro que vou à festa!» disse eu. «qual é a dificuldade de perceber isso?»

Ficou calado; quando chegámos a casa do Mocho disse:

«Poderão os quilómetros separar-nos dos nossos amigos?

Se queres estar junto de Rae não estarás já lá?»




«A pequena Rae está a crescer; vou ao aniversário dela e levo-lhe um presente», disse eu ao Mocho.





Era estranho dizer vou, depois da conversa com o Beija-Flor, mas mesmo assim disse-o, para que o Mocho pudesse compreender. Também ele voou em silêncio durante um bocado. Foi um silêncio amigável. Quando me pousou são e salvo em casa da Águia, disse:



«Não percebo nada do que dizes, mas sobretudo não percebo porque chamas pequena à tua amiga.»




«É evidente que é pequena», disse eu. «Ainda não cresceu. Que dificuldade há em perceber isso?» O Mocho mergulhou em mim o seu profundo olhar de âmbar, sorriu e disse: «Medita sobre isso.»




«A pequena Rae está a crescer; vou ao aniversário dela e levo-lhe um presente», disse eu à Águia. Agora era estranho dizer vou e pequena, depois das conversas com o Beija-Flor e com o Mocho, mas mesmo assim disse-o para que a Águia compreendesse.



Juntos voamos sobre as montanhas e planámos ao sabor dos ventos das altitudes. Por fim, ela disse: «Não compreendo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo essa palavra, aniversário.»



«Aniversário, claro», disse eu. «Vamos celebrar a hora em que Rae nasceu e antes da qual ela ainda não existia. Que dificuldade há em perceber isso?»



A Águia colocou as suas asas na posição de voo de mergulho e fez uma aterragem suave na reia do deserto. «Uma época anterior à vida de Rae? Não te parece que a vida de Rae começou antes de o tempo existir?»





«A pequena Rae está a crescer; vou ao aniversário dela e levo-lhe um presente», disse eu ao Falcão. Parecia-me estranho dizer vou, pequena e aniversário, depois da conversa com o Beija-Flor, o Mocho e a Águia, mas disse-o mesmo assim, para que Falcão compreendesse.



Lá em baixo o deserto deslizava distante; por fim ele disse:

«Sabes, não compreendo nada do que dizes, mas sobretudo não percebo o que queres dizer com crescer.»



«Crescer, claro», disse eu. «Rae é quase adulta, afastou-se mais um ano da infância. Que dificuldade há em perceber isso?»



Finalmente o Falcão aterrou numa praia solitária. «Afastou-se mais um ano da infância? Não me parece que isso seja crescer!» Elevou-se no ar e partiu.




Sabia que a gaivota era muito sensata. Quando voava com ela pensei muito e escolhi as palavras, para que quando as pronunciasse ela percebesse que eu tinha aprendido alguma coisa. «Gaivota», disse eu por fim, «porque me levas a ver Rae, se sabes que na realidade já me encontro junto dela?»



A Gaivota curvou sobre o mar, sobre os montes, sobre as ruas e pousou delicadamente no cimo do teu telhado. «Porque o mais importante», disse, «é que tu conheças essa verdade. Até te aperceberes dela, até a compreenderes inteiramente, apenas a podes demonstrar com coisas pequenas e com ajuda exterior de máquina, pessoas e pássaros. Mas lembra-te», continuou ela: «o facto de não ser reconhecida, não faz com que a verdade deixe de ser verdadeira.» E partiu.




Agora é altura de abrires o teu presente. Prendas de metal e vidro gastam-se num dia e desaparecem. Tenho uma melhor para ti.



É um anel que tu podes usar. Cintila com uma luz especial e ninguém o pode roubar; não pode ser destruído. És a única pessoa do mundo que pode ver o anel que te dou hoje, tal como eu era o único que o podia ver, quando era meu.



O teu anel dá-te um novo poder. Quando o usares, podes subir nas asas de todos os pássaros que voam - podes ver pelos seus olhos dourados, acariciar o vento que sopra através das suas penas de veludo, conhecer a alegria de te elevares sobre o mundo e as suas preocupações. Podes ficar no céu todo o tempo que quiseres, tanto durante a noite como durante a alvorada; quando quiseres voltar cá a baixo, as tuas perguntas terão resposta e as tuas preocupações terão desaparecido.



Como tudo o que não pode ser tocado pela mão, nem pode ser visto pelos olhos, o teu presente tornar-se-á mais poderoso à medida que o fores usando. A princípio só conseguirás utilizá-lo quando estiveres ao ar livre e vires o pássaro com quem voas. Mais tarde, se o usares bem, funcionará mesmo com pássaros que não consigas ver e finalmente descobrirás que não tens necessidade do anel nem do pássaro para os teus voos solitários sobre o silêncio das nuvens. Quando esse dia chegar, deves dar a tua prenda a alguém que a use bem e que compreenda que as únicas coisas que contam são as coisas feitas de verdade e de alegria e não as de metal e de vidro.



Rae, este é o último dia especial, de festa, que passarei contigo, depois de ter aprendido tudo isto com os nossos amigos, os pássaros. Não posso partir para estar contigo, porque já aí estou. Não és pequena, porque já cresceste, brincando em cada uma das tuas vidas, pelo prazer de viver, como todos nós.



Não tens aniversário porque sempre viveste; nunca nasceste e nunca morrerás, não és filha daqueles a quem chamas mãe e pai, és o seu companheiro de aventuras na maravilhosa viagem de descoberta de tudo o que existe.



Cada prenda de um amigo é uma esperança na tua felicidade; assim é este anel.



Voa, livre e feliz, para além de aniversários, através da eternidade e encontrar-nos-emos de vez em quando, sempre que quisermos, no meio da única festa que nunca poderá terminar.»















António Aleixo

Uma vez que é pouco divulgado e eu gosto bastante, achei que também irias gostar, ora lê :


Vós que lá do vosso Império

prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um Mundo novo a sério.


Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão





Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.



qualquer coisa de verdade.
P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade

tem de trazer à mistura


São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.



Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!


Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.



Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.



Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.



Morre o rico, dobram sinos;
Morre o pobre, não há dobres...
Que Deus é esse dos padres,
Que não faz caso dos pobres?


O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
quando consigas fazer
mais p'los outros que por tí!


Veste bem, já reparaste?
mas ele próprio ignora
que, por dentro, é um contraste
com o que mostra por fora.



Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.



Nas quadras que a gente vê,
quase sempre o mais bonito
está guardado pr'a quem lê
o que lá não está escrito.



Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.


Os novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.


Para triunfar depressa
cala contigo o que vejas
Finge que não te interessa
aquilo que mais desejas.


Os que bons conselhos dão
ás vezes fazem-me rir
por ver que eles mesmos, são
incapazes de os seguir.



quarta-feira, 28 de abril de 2010

Dis-me a verdade mendigo!!!

diz-me a verdade 
porque andas a pedir?
diz-me a verdade,
porque nos deixas ir?

diz-me a verdade mendigo...
porque pedes nestas ruas?
porque não tens amigo?
porque nos chamas tuas?

a vida passa por ti, mendigo...
ninguém pára no teu abrigo,
porque pedes sem cessar?
porque te dás a esse castigo?

eu te contarei, se por mim passares...
um destes dias quando te deitares e esperares por mim
mendigo...em mim não pensarás, só em ti, 
é em ti  que pensas, quando me abordares.

mendigo sou eu!! mas tu é que pedes atenção
tu é que sofres com a solidão do tempo
aborda-me com sinceridade
aborda-me por mim e não por ti

E ai...ai sim, mendigo só nesse momento
eu te contarei a verdade!
e agora passo eu pelas ruas do cais do Sodré
meu nome é mendigo, mas meu nome também é José!

in livro da insanidade by metamorfo


Rir quem nem um oco



passem por aki, dá para rir, ke nem um oko ;)

http://sobpressaonaoconsigo.blogspot.com/

acabei de o fazer e não consegui parar antes do patrão chegar....obrigada Juvenal!!
grrrr

segunda-feira, 29 de março de 2010

Oko amigo

Oko amigo, concelheiro capaz
nesta selva estarei contigo
deixas-te tudo para atrás
salvar-te-ei do iminente perigo...

porque insisto em contigo privar?
porque insistes nas histórias
que disses que tens para me contar?
leva para longe todas as tuas memorias...

oko chato que insistes...
vai-te embora não voltes mais
porque será que resistes?
porque te levantas sempre que cais?

oko de há muito tempo atrás
que caminha comigo e tudo tem...
são tempos de um tempo que me apraz
não serei eu oko também?!

Oko consumista

percorrem todos os centros comerciais da sua zona, todos os fóruns comerciais que conhecem, na busca incessante de algo igual a tantos algos que outrora viram em alguém, mas de preferência mais caro.
 gente oka sem gosto pessoal sem vontade própria ou incentivo . como eles vagueiam, como seguem errantes só olhando em frente!
 gente negra, gente desinteressante! facilmente os identifico, e isso dá-me alento para continuar, de mim pouco crédito recebem, e nunca me deixarão abalar!
estereótipos, papel químico de  actores famoso, podemos chamar-lhes tanta coisa...consumistas natos, por norma só pensam em gastar dinheiro, quando crianças sonham com o dinheiro dos pais...e que pais...que pais que alimentam o vicio das crianças de amanhã que tudo pedem, tudo têm e nada merecem! amanhã teremos os nossos adultos, crianças de hoje, que maltratam quem os bem tratou em tempos...mas não é assim a vida!? È...mas não deveria ser...e só quem joga pelo seguro está protegido...estás protegido? eu não estou...mas a capa que mandei fazer é grande o suficiente para me proteger, queres vir te abrigar comigo debaixo dela? se sim és bem-vindo, se não...lamento, mas abrigar-me-ei sozinho!

«Segue teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas.
O resto é a sombra de árvores alheias.

A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos.
Só nós somos sempre iguais a nós próprios.

Não só quem nos odeia ou nos inveja nos limita e oprime;
Quem nos ama não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido de afetos,
Tenha a fria liberdade dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo;
Quem quer nada é livre;
Quem não tem, e não deseja, homem, é igual aos deuses.»

- Fernando Pessoa – Odes de Ricardo Reis

sexta-feira, 26 de março de 2010

Os Okos e o tempo

«Ao dizermos: “O conhecimento não ocupa lugar” estamos a fazer uma afirmação incorrecta. A memória é como uma “caixa”. Quanto mais informação tem, mais cheia fica. Quando a “ caixa” está “cheia”, tem de “esvaziar”. A esse “esvaziamento” a Psicologia dá o nome de esquecimento. O esquecimento permite à memória reter ou armazenar novos conhecimentos. O esquecimento é essencial para o processo de memorização. É, pelo facto, de esquecermos que estamos aptos a fazer novas memorizações. O esquecimento apresenta uma função selectiva e adaptativa, afastando todos os materiais que não são importantes ou úteis para um normal funcionamento da nossa vida.»
.Escola Secundária 3ºcliclo da Azambuja
António Matos nº4- 12º A
Miguel Apolinário nº13-12º A
Rui Gaga nº15- 12ºA

 Achei deveras interessante este excerto de texto inserido num trabalho de grupo efectuado por estes alunos. podia ter citado qualquer um, mas tropecei neste, por isso...
aliamos então, Dali, psicologia, esquecimento e ocos.

lembras-te naquele tempo? quando a comida que tinhas, apenas era suficiente para colmatares as necessidades mais básicas? quando por volta das 20h00 sentias a barriga colada ás costas e o melhor que tinhas a fazer era enfiares-te na cama a ver se as dores passavam, lembras-te?

lembras-te daqueles dias frios demais que te apetecia um banhinho quente e que nem  água aquecida tinhas? sim, e das vezes que querias convidar algum amigo lá a casa mas a vergonha da parca mobília calava-te a boca abafava-te as palavras...lembras-te?

lembras-te quando a televisão, a boa aparelhagem e o auto rádio xpto, faziam parte dos teus sonhos e nada mais? 

Meu amigo irmão, esse tempo há muito que está esquecido, arquivado nalguma partição da tua mente desordenada, na ânsia de nunca voltar a encontra-lo nem sequer passar os olhos por quem passa pelo mesmo, apesar dos tempos já serem outros e os outros já não serem destes tempos...

nesse tempo a olhos de alguns surreal e irracional teria te conhecido com toda a nudez que se quer, com toda a pureza e confronto que se pretende! sem tempo para okiçes ou qualquer coisa terminada em içes, seriamos só tu e eu em pleno! tu e eu, tempo, eu e tu insanidade.

e hoje? hoje nestes dia okos nesta dimensão de plena superficialidade e soberba, correm feitos loucos tentam passar pela porta do tempo em busca de dias melhores! não!!! não os encontraram, pois eles morreram há muito, há muito que se extinguiram, hoje lutas por tudo o que é material, por tudo o que possas mostrar ao teu próximo, por tudo o que achas que te dignifica...e o vento leva-te, afasta-te cada vez mais da tua condição de humano...vai....vai...quiça os encontres por entre as nuvens do paraíso, quando fores para o ceú...

in livro da insanidade by MetaMorfo




 

quarta-feira, 24 de março de 2010

Desprovidos de olhar


Desprovidos de olhar, cruzam-se nos teus caminhos, amparam as ansias dos prescritos, são os homens malditos, sem escolha, sem rumo, sem dor.
nada me  rovolta e indigna mais do que constatar no meu semelhante olhares vazios e peitos ocos.
Roboticamente deambulam pelas bifurcações da vida, escolhendo metódicamente sempre o mesmo rumo!
gente que só olha para si, que só vê os seus problemas que só repara nos seu medos, desprovidos de olhar eles rumam ao seu objectivo, olham e não vêm o sem abrigo, não vêm a criança, não vêm o idoso tentando atravessar a rua, ou o ceguinho na porta do metro...e caminham, caminham...desprovidos de olhar, eles olham sem ver os males do mundo...
a total ausência de sentimentos, a inércia e as frases monosílabas caracterizam este Homem que passa ao teu lado sem te ver, agem mecanicamente e a palavra semelhante não existe nos seus dicionários, alheios a tudo o que não lhe diz respeito, seguem a sua marcha sem nada que os demova...deixai-os passar, deixai-os passar...

terça-feira, 23 de março de 2010

Carinhosamente okinhos

Hoje, e como já não vos visito á bastante tempo, quero deixar algo profundo. Falar-vos-ei de um grande filósofo espanhol que tanto adoro; José Ortega y Gasset e com uma citação do mestre inicio este post:

«É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução» made in a Rebelião das massas.

Carinhosamente cuidamos dele, de mansinho ele vai crescendo, crescendo, crescendo...mas só mesmo em matéria, damos-lhe tudo o que não tivemos, reparamos-lhes todas as falhas, seguramos sua mão, comatamos toda e qualquer falta...no entanto, só a matéria é que continua a expandir-se...

qualquer erro é perdoável, qualquer indiscrição não mereçe castigo, e eles crescem, crescem, a repreensão é impensável, pois levaria a nos odiarem mais tarde...carinhosamente pagamos suas dividas incautas, sem nunca questionarmos! e no entanto eles continuam a crescer...e um dia...um dia qualquer...quiça um dia de sol, sem nuvens, um dia de paz...deparamo-nos com eles á nossa frente, sem dividas, sem maus tratos, sem danos sem arranhões, sem carências, sem sufocos...mas também sem nada para além da matéria pálpavel...e ai, ai os chamaremos carinhosamente de okinhos!

São estes os adultos de amnhã, são estes seres que carregam castelos de areia nas mãos, que carregam alentos e magias inatingiveis, que vivem para além do terreno, para além das nuvens de açúcar!
como eu os queria acordar, como um dia alguém me acordou a mim, como eu os queria despertar deste sono  profundo.